04 junho 2014

o dom da invisibilidade

Estou a rever uma tese de um eminente escritor nacional. Vigio o cumprimento de normas e aponto, com zelo e discrição de governanta, gralhas e pequenos deslizes na ortografia. Cabe-me assegurar que tudo está imaculado e irrepreensível no que se refere à forma. A minha missão é pois desaparecer. Engomar com descrição servil uma peça de tecido delicado, eliminando vincos e devolvendo-a ao autor sem tropeços formais que corrompam o brilho do conteúdo. Depois saio de cena com a satisfação de um trabalho tão esmerado que se torna imperceptível.

9 comentários:

Rita Maria disse...

Se precisares de mais clientes..

Quando me encontrares disse...

:)

gralha disse...

Teria muita honra, Rita Maria :)

Naná disse...

Ui... tarefa nada fácil!

Niall Power disse...

Eis uma belíssima síntese do que deve ser o trabalho de um bom educador... Sair de cena, quando a obra já pode brilhar por si mesma! Que imagem tão bonita para tantas coisas na vida... Lindo! Ab Teresa Power

gralha disse...

Não é tarefa fácil, não senhora, Naná.

Que grande verdade, Teresa Power :)

dona da mota disse...

Um dom a cultivar, esse da invisibilidade. Um dom enorme num mundo de Pavões.

Ana. disse...

Boa!
Esse também é o trabalho de um tradutor, transpor para português o que um autor escreveu noutra língua, sem que se dê por ele. Quanto mais invisível for o tradutor, melhor o seu trabalho!
Quando se consegue fazer bem feitinho, é um orgulho! :)

gralha disse...

dona da mota, nada de confundir invisibilidade com desaparecimento (que nunca mais deste notícias, mulher).

Ana, é isso mesmo. Ena, tantas vocações que passam por boas doses de invisibilidade :)