24 junho 2014

capuchinho vermelho e os lobos maus

Sou incontornavelmente introvertida (ia dizer irremediavelmente, fintei  a tempo o deslize). Já aqui confessei que evito o colectivo quando é possível e, não o sendo, ajusto a armadura para o combate que travo contra a vontade de isolar-me. Estou crescida e até disfarço medianamente: faço conversa de circunstância, não abdico do que gosto mesmo que isso implique conhecer pessoas novas, e sigo guiões de convivência cordial estabilizados ao longo de décadas de tentativa e erro.
Mas continua a custar-me a admissão numa nova tribo. E tratando-se de um grupo relativamente homogéneo e diferente de mim, custa ainda mais. Se é composto essencialmente de homens, mais velhos, batidos naquilo que me fez aproximar deles, é preciso lutar muito contra a minha natureza e pedir licença para entrar, de cabeça baixa. Vou entrando, ouvindo, desaparecendo para dentro da minha sombra. E com o passar do tempo orgulho-me mais de ir vencendo este obstáculo do que de todos os montes que consigo trepar, todas as rampas que corro com o peito a explodir, todas as horas que peço ao corpo que dê tudo. É que é muito mais fácil coagir pernas, braços e coração do que debelar temores antigos.

3 comentários:

Naná disse...

Não acredito que sejas assim tão "bicho de mato"...

Se bem que é certo que a idade ajuda a evitar grupos com quem não vale a pena perder tempo...

gralha disse...

Sou, sim senhora, Naná. Atrás dos caracteres, qualquer bicho do mato passa por muito sociável.

Quando me encontrares disse...

:) Mais uma vez, revi-me.
No entanto, seria para mim muito mais difícil se o grupo fosse de mulheres.
É-me mais fácil enturmar-me com homens, que não invadem tanto o meu espaço.