18 outubro 2010

a torrente emigrante

Metade das pessoas que conheço gostava de emigrar. A outra metade, ou já o fez, ou vai fazê-lo em breve. Pronto, esta estatística está aldrabada mas é mesmo uma grande quantidade de gente.
Acho óptimo que as pessoas não se acomodem e tentem encontrar alguma coisa melhor. Aliás, ando a ler a História dos EUA e olho para a situação de Portugal nos nossos dias e penso: "mas por que é que as pessoas ficam quietas e não fazem uma Revolução?" É estúpido desistir da possibilidade de uma vida melhor, sobretudo quando essa possibilidade existe e não nos é vedada por um determinado sistema político, por falta de educação formal ou por quaisquer constrangimentos culturais. Mas também é verdade que a ideia da emigração como El Dorado é um mito.
Emigrar custa. Custa muito dinheiro. Dói no coração. Temos de nos recriar e habituar-nos a viver, pelo menos durante algum tempo, sem laços sociais, possivelmente sem laços familiares. Também há desemprego nos outros países e muitas vezes há alguma má vontade contra os estrangeiros que vão "roubar" os empregos que há. E depois há uma coisa que acho que só quem emigra pode compreender, que é deixarmos de ser nacionais do nosso país e nunca chegarmos a ser nacionais do outro. Passamos a ser uma espécie à parte, que vive num limbo, nem carne nem peixe. Eu nunca serei americana (nem queria, lagarto, lagarto, lagarto!) mas não sei como é que os meus filhos se vão sentir quando voltarmos a Portugal. E o êxodo é tal que nem sei se temos Portugal para onde voltar daqui a dois anos. Será que isso vai estar vazio, ou só cheio de desiludidos? Por isso, força aí pessoal, emigrem. Mas só depois de esgotar as outras opções. E escolham bem o destino.

7 comentários:

Melissinha disse...

Fizeste-me pensar, Gralha.

Ana C. disse...

Gostei muito desta tua reflexão, muito mesmo.

Costinhas disse...

eu não me imagino a sair daqui, mas ao mesmo tempo, cada vez me conformo menos com o que tenho aqui e com o que se aceita aqui... enfim.

Vera Dias António disse...

Como sabes, eu pertenço, na tua estatistica, aos que gostavam de emigrar. Mas o Rui tem dias, uns que sim, outros que não. Aquilo que tu vives agora tem sido a vida dele. Nasceu numa colónia portuguesa, é português. Depois viveu 30 anos noutro país, como refugiado de guerra e foi aí que se construiu, sem o tal sentimento de ser nacional. Há 10 anos em Portugal, é português sem o ser. Aqui acaba por ser um emigrante, não se identifica minimamente com a nossa cultura e os laços familiares, tirando os pais - por quem está aqui - e os tios. Aqui não tem amigos de infância nem de juventude. Tem-nos a nós, mas isso pode ter em qualquer parte do mundo... no fundo acho que lhe custa que os miudos percam os tais laços que ele acabou por nunca ter, é estranho. É muito complicado.
Sobre a revolução... todos falam nisso mas não há nenhum Salgueiro Maia, mesmo civil, que se chegue à frente. O mais incrivel é que nunca como hoje as corrupções, as tretas e a areia que tentam atirar-nos aos olhos foram tão expostas, tudo se sabe, tudo aparece nos media. Estamos mais informados do que nunca, também mais descontentes, mais na miséria do que nunca... mas mais quietos do que nunca.
Não sei se vais encontrar um país vazio, mas pobre de dinehiro e de valores, concerteza!
Por mim ia para o Chipre onde o nosso dinheiro ainda vale, onde as propriedades são baratuchas e onde nos dão 80000 euros só para recuperarmos uma casa. Afundar por afundar, antes numa ilha, tem mais lógica! Depois há a lingua, grego e turco... isso é que me complica o sistema, lol! Ah! Vivendo lá dedicamo-nos à agricultura, aos limões e compramos um barco. Queres visitar-nos um dia destes? LOL

gralha disse...

Vera, Chipre é que não. Aquilo é feio como o boi!

Marta disse...

É assim mesmo como descreves, Mariana!
Emigrar custa imenso, custa largar a âncora, especialmente nos primeiros tempos, quando nos sentimos à deriva e nada faz sentido. Depois apaziguamos e conciliamo-nos com o novo espaço e a nova vida e até gostamos. Só que ficamos (acho que para sempre, mesmo que voltemos ao nosso país) nesse limbo, sem saber muito bem onde lançar a âncora de novo...E teremos sempre saudades de alguma parte de nós que ficou noutro sítio qualquer!

É engraçado que no primeiro ano que aqui cheguei também andei a ler sobre a História dos EUA!
Beijinhos,
Marta

Vera Dias António disse...

Gralha, os bois são giros e o meu filho mais velho quando for grande quer criar bois, não digas mal!!!LOL